Da coleção de histórias inacreditáveis: um atropelamento e um bilhete guardado para sempre

Certo dia, depois de tentar medicar umas manchas na pele com meu próprio CRM, me dignei finalmente a procurar um dermatologista.

Ia dirigindo sozinha, chateada com o trânsito absurdo e de ter que interromper minha rotina para procurar um outro médico. Parada em um sinal em Botafogo, abaixei a cabeça por um momento, tentando encontrar distração no rádio (o celular naquele tempo só servia mesmo para falar no telefone) quando, de repente, um motoqueiro bate com as mãos na minha janela e faz sinal para que eu abaixe o vidro.

A cidade maravilhosa sempre foi muito violenta e neste exato momento o sinal abriu. Assustada, claro, eu arranquei com o carro e nitidamente senti que passei em cima de alguma coisa. Alguém gritou e eu freei. O mesmo motoqueiro bateu de novo no meu vidro e berrou:

– Você atropelou uma pessoa! Tentei te avisar.

E se foi.

Pânico! Como? Não havia ninguém na minha frente! Liguei o pisca alerta e desci do carro pra olhar. Uma moça magrinha, estava deitada na rua. Marcas de rodas nas suas pernas e eu havia literalmente passado em cima delas. As pessoas em volta me contaram que enquanto eu estava distraída, parada no sinal, ela se deitou no meio fio. Metade do corpo para fora da calçada, as pernas no asfalto, ficaram exatamente na frente das rodas do meu carro, abaixo do meu campo de visão.

Um rapaz se aproxima e me entrega um bilhete:

– Este é meu telefone, ele diz. Se você precisar posso testemunhar que ela deitou na frente do seu carro, sem que você pudesse ver.

Guardo o bilhete na bolsa automaticamente. Me concentro na moça que gemia, e falava coisas desconexas. Não havia feridas, nem fraturas evidentes, mesmo nas pernas. Mas a respiração era assustadoramente estranha, os olhos esbugalhados. Examinei o resto do corpo, tudo normal. Pulsos fortes. Confirmei com testemunhas:

– Passei somente (somente?) em cima das pernas?

– Sim, sim.

Unanimidade.

Apareceu um guarda, desviou o transitou, ligou para os bombeiros. Eu paralisada, não tirava as mãos do pulso da mulher, quando o marido apareceu. Alguém reconheceu a esposa do garçom da churrascaria ao lado e chamou o sujeito.

– É minha mulher. Não acredito… acabou de me pedir dinheiro. Me disse que estava limpa e que queria visitar a irmã em Realengo. E eu dei cinquenta reais. Idiota. Pelo visto comprou droga de novo. Está doidona…ela usa crack moça…coisa pesada…deixa ela aí que o bombeiro vem pegar. Eu não vou ficar aqui. Não tenho mais paciência pra isso. E voltou para o restaurante, sem titubear.

Aí entendi o torpor e a respiração. Fiquei mais tranquila. Eis que se aproxima um casal jovem. Ele se identifica com orgulho:

– Sou estudante de medicina, estou no último ano.

E examina a moça de novo. Eu continuava atordoada, não falei nada.

– Ela está fazendo uma parada respiratória!

E declara:

– Vou fazer um “boca a boca”…me ajudem aqui.

– Não! Você não vai fazer nada. Não vai nem mesmo mexer nela.

E acabo me identificando:

– Se você é quase médico, eu sou médica.

Mas ele não entende. Acha que estou debochando.

– Não vê? Ela vai morrer!

Tento argumentar:

– Não, não vai não, é só efeito da droga, veja que ela volta a respirar. É viciada, acabou de usar alguma coisa.

Explico do marido, tento convencer. Mas o rapaz insiste, finge que não estou ali, e depois de tentar explicar várias vezes, acabo que preciso contê-lo com meu corpo, gritando e cercando a moça no asfalto.

– Não mexa nela! Estou falando sério. Não sabemos se tem alguma coisa no pescoço, não sei o que de verdade aconteceu. Se quiser ajudar fica esperando a ambulância como eu, tomando conta pra ninguém mexer.

Era só o que me faltava, paro meu dia para ir ao dermatologista, atropelo alguém e ainda tenho que cuidar de um estudante de medicina, enlouquecido e salvador do mundo…

A ambulância chega até rápido, colocam o colar cervical, pegam a moça com a maca, e só me perguntam o que aconteceu. O guarda não troca nem uma palavra comigo. O casal de estudantes vai embora sem se despedir. E eu sigo para a dermatologista, tremendo dos pés à cabeça.

O motoqueiro se indignou com meu preconceito, mas tenho certeza que não vai desistir de ajudar outros motoristas. O marido desistiu da mulher, mas suspeito que ainda vai acreditar nela, outras inúmeras vezes. O estudante não conseguiu ajudar a moça, mas ainda vai salvar muita gente.

E o número de telefone da minha possível testemunha ficou na minha caixa de documentos importantes. E apesar da passagem dos anos, nunca consegui jogar fora. Virou um talismã. Representa para mim a bondade desinteressada, especial e rara. Sempre que olho para ele fico feliz.

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