Da coleção de histórias de vida – Uma porta entreaberta – Hospital da Lagoa

Queria escrever sobre minha aposentadoria. A primeira imagem que me veio foi de uma porta que se fecha. No entanto, refletindo, penso que esta e tantas outras portas pelas quais passamos na nossa vida, deveriam ficar entreabertas. Vai ser bom, e necessário, de vez em quando dar uma espiada lá dentro e lembrar da menina de coração generoso, dos duros aprendizados, das conquistas e, do mais importante, de um sucesso tão íntimo que mesmo pra mim só tenho coragem de sussurrar. O sucesso de perceber que você provocou mudanças importantes, sendo somente quem você é. Porque eu ainda acredito na força da liderança autêntica, falível e corajosa. E vou precisar continuar acreditando, simplesmente porque provavelmente não vou saber fazer diferente.

Encosto a porta com um pouco de dor no coração, pois já me dá saudades da troca com os pacientes, que demorei tanto para compreender que, na verdade, me dava mais recompensas do que trabalho.

Não foi fácil os jalecos…

Ser médica nunca tinha passado pela minha cabeça até fazer um teste vocacional. Estava com 17 anos, cursando na área humana o último ano da escola e pensava em fazer jornalismo. Tinha a cabeça confusa e o raciocínio abstrato demais para escolhas práticas, e isso tinha sido acirrado por todo um ensino em escola experimental (aprendi matemática com jogos de pinos e nunca havia decorado uma só linha de um livro até chegar à universidade). Porém, o tal teste não foi nada parecido com a minha cabeça, foi taxativo em uma única palavra: medicina. Depois de muitas conversas com o psicólogo e chororô pela longa jornada de 6 anos que deveria enfrentar, fiquei convencida que eu seria feliz. E me empolguei.

Entusiasmo tem origem na expressão “Deus dentro de nós”. Acho uma palavra linda. Acredito que esta palavra me definiu durante muitos anos, me ajudando a seguir sempre com alegria. Deixo o hospital com sensação de dever cumprido, com o coração leve e ainda com a esperança que este meu Deus interior nunca me abandone.

Deixo também violetas na janela, marca da nossa sala dos médicos, mas levo comigo uma das minhas lembranças prediletas de solução de problemas, que sempre me faz sorrir. O peculiar bilhete que deixei para o ladrão de vasos flores que ousou atuar por ali: “Caro ladrão de violetas, estas flores são para manter o bom astral da NOSSA casa e não ficarão bem na SUA casa. Pedimos a sua compreensão”. Era quase um mau agouro e o larápio nunca mais se engraçou.

Violetas na janela. Sala dos médicos da Nefrologia.

Das lembranças engraçadas fica também aquela do primeiro dia de trabalho, quando o guardador de carros interpelou a menina que eu era, para me informar que só “médicos de verdade” estacionavam ali.

E também a do vendedor de quitutes do trailer da frente do hospital que dava bom-dia Angélica para todas as loiras e bom-dia Juliana Paes para todas as morenas.

Entre as lições, uma muito difícil: se você ousar fazer algo muito bom mas que não é sua obrigação, você trará toda a responsabilidade para você. E sempre coisas erradas podem acontecer, que serão todas da sua responsabilidade. Mesmo não sendo sua obrigação. Portanto, pense sempre o que pode dar errado e se vale a pena. As vezes é melhor um pouco menos de coragem.

O Cristo sempre guardando o hospital

Outra: faça sim as coisas do seu jeito, seja crítico, não se acomode, não continue processos que você não entende ou não concorda. Fazer do seu jeito pode ser trabalhoso, mas pode te proteger muito mais do que você imagina.

E, é claro, todo mundo tem defeitos. Mas quando você confia em alguém, sua confiança passa a ser o mais poderoso estímulo para que cada um faça o seu melhor. E só precisamos disso das pessoas.

Me despeço com gratidão do prédio projetado por Niemeyer, da vista linda das janelas, e dos jardins de Burle Max, que sempre me alegraram, especialmente das árvores de tronco marrom claro e flores de bolhinhas amarelas do estacionamento, e das flores cor de rosa gigantes que viram cocos no final da estação.

Hospital Federal da Lagoa e as árvores de bolinhas amarelas
Nossa vista privilegiada no Natal.

Vou embora já usando óculos, sendo chamada de senhora pelos residentes e já não conseguindo me aborrecer com os erros daqueles de bom coração, porque eles me remetem aos meus filhos, que estão também na idade de errar muito e aprender. Tenho vontade de colocar todos no colo. Mas também digo adeus com satisfação para aqueles desprovidos de empatia. Tenho vontade de estrangular todos. Minha paciência para estes se esgotou na hora certa.

E por fim, nunca me cansarei de agradecer a convivência com meus amigos médicos, que construíram comigo esta história. Como fui sortuda de conviver com estas pessoas totalmente do bem. Gratidão eterna!

Ganhei uma caneca linda. Com a foto de todos meus amigos queridos: JUNTOS ESCREVEMOS ESTA HISTÓRIA

5 comentários

  1. Ler sua despedida tão linda, me fez lembrar o quanto te admiro e porque tanto te admiro. Que esse ciclo que se encerra sirva de exemplo para o novo que se inicia. Que suas ideias nunca se corrompam mesmo em uma instituição privada e com fins lucrativos.
    Que suas leituras, aprendizados sirvam sempre para o crescimento do outro.
    Parabéns pela trajetória no hospital da Lagoa e sucesso nos novos desafios.
    Um abraço apertado cheio de boas vibrações.

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  2. Querida Bia, soube da sua aposentadoria por um acaso pela Dra Angela no centro de estudos. Estamos tentando montar um comitê de ética em pesquisa e ela falava sobre os muitos médicos que haviam se aposentado no ano de 2018, e que no ano seguinte, vc tb seguiria. Duas semanas depois vc já estava a aposentada pelo Hospital. Quase não acreditei! Não mandei nenhuma mensagem pois entendi que esse gatilho seria somente seu. Mas de toda forma, vc foi muito importante para mim. Minha lista de pessoas que ao longo da minha vida fizeram a diferença contempla poucas pessoas e vc com certeza é uma delas.
    Obrigado por tudo o que vc fez por mim. Foi por causa de vc que eu fui escolhido em 2008 numa seleção complicada para trabalhar no hospital. Vc sempre defendia o meu trabalho quando saíam aquelas barcas de profissionais. Meu doutorado existe graças a vc. Sentirei falta dessa sua energia, do seu atral, da sua intervenção médica junto aos pacientes. Mas espero de coração que eu possa ainda conviver e te encontrar muito. Seja muito feliz sempre, vc merece. Hoje a Lagoa se despede de uma grande médica e que sai com o dever mais do que cumprido. Parabéns pela sua trajetória!! Muitos bjs

    Curtido por 1 pessoa

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